quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DIVAGAÇÕES: O FILHO DE MIL HOMENS

Hoje eu comecei a ler O filho de mil homens do Valter Hugo Mãe e tenho pensado tanto sobre ele que a coisa que eu mais desejava era chegar em casa e escrever. Pode ser que isso tudo fique sem sentido, que vire um emaranhado de pensamentos sem começo, meio e fim, mas o misto de sentimentos e sensações que eu vivi ao longo dessas 70 páginas foram tão profundos e a minha vontade de voltar a escrever sobre livros era tão grande que eu achei melhor escrever agora, mesmo tendo mais da metade do livro pra ler, do que deixar pra depois e isso tudo passar.

"À noite, as vezes deitada em silencio, a Isaura penava sempre que o caminho para a liberdade estava no casamento e no meio das pernas. Pensava que, quando pudesse abrir as pernas, o seu rapaz a amaria por muito tempo e a faria feliz. Pensava que por dentro das pernas um anzol se prenderia ao pênis do rapaz. Um anzol imaginário que justificaria a fidelidade e a companhia para a vida inteira. Ser feliz era igual ter a companhia dele e o sexo. Sobre o sexo ela não sabia mas imaginava muito. O rapaz dizia-lhe: se não me deres a ferida, não vou querer casar contigo. A Isaura morria de medo. Doia-lhe a ferida de tanto esperar. Pensava que tinha um nome bonito e que tinha nascido com sorte. Só precisava de ser merecedora e esperta. Ele também lhe dava a entender isso. Pedia-lhe que não fosse burra ou parva. Para ser melhor, tinha de aceitar"

Ler esse trechinho na imensidão de sofrimento que é o começo do livro me fez pensar no tanto de mulher que ainda vê o casamento como uma forma de escape, que ainda pensa em sexo como forma de segurar homem e que ainda vive sem saber o quão incrível é sentir prazer. E me da uma raiva sem tamanho pensar em como as pessoas se acham no direito de criticar, apontar o dedo e inventar coisas de gente que só quer se sentir completa. E olha que a minha visão do completo nem envolve outra pessoa, ela não tem nada a ver com essa procura sem nexo pela "metade da laranja", o ser completo, pra mim, tem mais a ver com autodescoberta, com saber o que te faz bem, o que te faz feliz e com buscar isso o tempo todo (desde que de forma saudável e sem prejudicar outra pessoa) e, se no fim, a pessoa descobrir que gosta mesmo é de sexo, o que é que tem? Que ela seja feliz, que ela se descubra, que ela viva tão em paz consigo que não perca tempo pensando e botando o dedo na vida do outro. 

Um outro capitulo do livro, que trata da vida de uma anã, foi igualmente perturbador pra mim. Me da uma angustia saber que coisas como as que ele narra não são ficção, que são a realidade de muita gente. Que existem mulheres agora se deitando com os maridos por quem não sentem um pingo de tesão e que se sujeitam a isso, aos abusos, as traições e a falta de amor por medo de acabar sozinhas, por pressão da sociedade, da família, por falta de opção... Eu fico nervosa sempre que penso em quanta gente já sofreu por invenções, por mentiras e por julgamentos de gente que não sabe de metade daquilo tudo que elas já passaram.

Ler livros como esse me fazem tão mal, tão infeliz e ao mesmo tempo tão bem, tão melhor, tão mais empática que eu até deixo de me preocupar com o fato de que ler no ônibus me tira a privacidade; eu rio, eu choro, eu faço barulhos esquisitos, eu fico triste quando percebo que chegou a hora de descer e, por vezes, quase perco o ponto. Eles me fazem entender que a vida é uma droga, que ela vai ser sempre assim, mas que livros como esse podem fazer toda a diferença. Eles me fazem perceber que, talvez, a unica coisa que eu queira de verdade fazer pro resto da minha vida é ler livros como esse. 

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